Arquivo para dezembro \26\UTC 2005

Mensagem de fim de ano

Você está acostumado a todo fim de ano receber uma mensagem minha de Natal e Ano-novo, sempre criativa, com o mínimo de plágio, numa linguagem formal e cativante. Desta vez, para não deixar em branco — embora esta seja a cor do fim de ano — resolvi utilizar deste fenômeno de audiência que é o Mamendex.

O ano de 2005 passou voando (pediu até um segundo a mais de desconto) e ainda assim já vai tarde. Espero que para alguém ele tenha valido a pena. Assim sendo, desejo que 2006 seja um ano melhor — o que definitivamente não é pedir muito.

Peço que ele traga desafios mas, diferente de 2005, que apresente alternativas. Peço que o ano-novo traga alegrias mas que, ao contrário do ano-velho, desatreladas a sentimentos de culpa. Desejo que ele traga crescimento e sabedoria, ao invés de andar para os lados ou mesmo para trás. E já que é ano de copa, peço que traga comemorações — mas que sejam sinceras, e não de praxe.

Finalmente, que eu possa repousar a cabeça num domingo bonito, tranqüilo, silencioso, com uma brisa leve soprando ou umas gotas finas de chuva caindo. Que eu possa olhar esse domingo e pensar que tudo que eu tenho feito é justo e tudo que eu tenho é merecido. Que eu possa curtir minha casa e minhas coisas, meus amigos e minha família, e principalmente a mim mesmo.

Desculpem uma mensagem de ano-novo tão egocêntrica mas, olhando agora, vejo que no ano que passou esquecí de mim mesmo.

Não cometam o mesmo erro.

Cresçam, aprimorem-se, cuidem-se, curtam-se, agradem-se, amem-se como ao próximo.

Feliz 2006.

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O contador de ilusões

Uma coisa que eu odeio em certos filmes e séries americanas é como é fácil advinhar que o mocinho/mocinha vai conseguir aquele emprego, ou conquistar aquela mulher gostosa, descobrir a cura daquela doença, encontrar aquele tesouro, etc, como se na vida real, ao fazer tudo certo, você teria uma recompensa esperando por você.

Não precisa viver muito pra saber que não é sempre assim. Seu irmão fazia a merda e você apanhava junto. Se tentava defender seu irmão, apanha por encobrir a travessura. Se dedurasse ele, apanhava pra aprender a não ser X9. Se desconhecesse por completo o assunto apanhava pra ser mais esperto. Ou por mentir. Ou sei lá o que, sei que você apanhava e tinha a impressão de apanhar mais ainda que seu irmão.

Foi Schopenhauer ou Kant, não lembro, quem disse que a recompensa por fazer o mal era imediata, óbvia. E a recompensa por fazer o bem era misteriosa, inexplicável, consistia no bem-estar e na paz de consciência. Nada além disso. Ele dizia que a prova da existência do Bem — e portanto, de Deus — era que tudo no mundo apontava que ser Mal era a coisa mais vantajosa a ser feita mas ainda assim a maior parte das pessoas insistiam, sem razão concreta aparente, em praticar o Bem.

Traduzindo, a lição final é que você deve fazer o bem se você se sente bem com isso, e fazer o mal se consegue conviver com isso, e ponto final. Olha que pra um padre dizer isso é sinal de alguma coisa…

Lembrei disso ao assistir à uma entrevista do Woody Allen em que ele diz exatamente isso, e o quanto ele percorreu assuntos desta natureza usando da linguagem universal do humor em seus filmes. Pensando bem, nos filmes dele, o baixinho fracassado pode até pegar a Julia Roberts mas no final não fica com ela. Uma exceção à regra da previsibilidade que condeno (desde o primeiro parágrafo).

Outra coisa irritante são as histórias infantis de Hollywood. Se você acha difícil conversar com crianças sobre a morte, coloque um desenho americano qualquer. Todos eles têm uma morte, se não uma carnificina. A mãe do Bambi leva um tiro nos cornos. A família do Nemo é toda dizimada. O Irmão Urso? Morre. O Espanta Tubarão? Mata. O Rei Leão morre, o irmão dele também. A Era do Gelo? Porra, os dinossauros foram extintos. No O Planeta do Tesouro a Terra inteira explode. E ainda assim, o final é feliz, como pode?

Assim, à luz da metafísica e passando longe da fórmula mágica da TV e cinema, resolvi criar novas histórias clássicas para Holywood. Seguem alguns resumos, em primeira mão:

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Bambi andava tranqüilo pela floresta, brincando com as borboletas e os pássaros. De repente… BANG! Mamãe… Mamãe…

A mãe de Bambi foi alvejada por um apresentador de programa de caça do Outdoors Channel. Ele usou uma Winchester 1885 Low Wall 17HMR. Se fosse durante o programa seguinte ela provavelmente teria levado uma flechada de um Buckmaster BTR Bow.

O fato é que Bambi está órfão, assim como vários outros de sua vizinhança. Ele poderia ter desperdiçado sua juventude se voltando para às drogas ou furtos mas ao invés disso ele se manteve focado nos estudos e entrou para a associação pelo desarmamento civil de sua cidade.

Bambi hoje trabalha como operário numa fábrica de enlatados de Connecticut e tem 3 filhos. O primeiro neto deve nascer ainda esse ano.

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O Rei Mufasa e seu filho Simba, herdeiro do trono, viviam felizes na Selva (que era como eles chamavam a savana). Porém, as opressões de um regime totalitário e ditatorial eram a única razão da aparente paz — a paz que não se quer — que reinava naquele local, há vários ciclos da vida.

Várias espécies — como as hienas — lutavam por eleições diretas e tinham no irmão do Rei, Scar, um aliado. Além desses democratas, havia também outros grupos de insatisfeitos, porém menos pacíficos. Veados e gazelas, cansados de serem comidos e nunca receberem um telefonema no dia seguinte, criaram o grupo extremistas Guerreiros Ligeiros que era responsável por vários atentados na capital.

Foi quando aconteceu a tragédia. Durante um passeio com Simba, o rei Mufasa foi atropelado por um estouro de gnus. Nunca se soube verdadeiramente o que aconteceu nesse dia. Existem várias teorias. Algumas culpam os Guerreiros Ligeiros, outros imaginam uma conspiração envolvendo todo o governo. Outras dizem que J. Lee Oswald, um tigre frustrado (repita isso 3 vezes bem rápido) considerado louco por muitos, teria conseguido disparar 3 manadas de gnus, separadas pela distância de 15 milhas, num intervalo de 1.3 minutos. Essa teoria ficou conhecida como a teoria do Tigre-Bala Mágico.

Mas a história culpou Scar — que assumiu o governo provisório — e algumas hienas que seriam seus comparsas. E quando Simba retornou para assumir o poder, o sonho da democracia nas savanas desmoronou, junto com sua economia.

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Fullana Sillva é a personagem principal desta sitcom. Ela é bonita, inteligente, engraçada e tem um gênio danado. Ela quer trabalhar numa agência de propaganda. Um dia ela vê o anúnico de uma vaga para gerente de criação — não pensa duas vezes e envia o currículo.

Havia várias outras pessoas, é claro, na fila pra entrevista. Beltrano, Cicrana, Fulano. Nenhuma delas tinha sobrenome, porém. Ficou fácil advinhar de quem era vaga.

Porém, nem tudo são flores. Fullana foi a pior gerente de criação que a tal empresa tinha visto. Perdeu vários clientes importantes e o rombo financeiro causado levou a agência a fechar as portas.

Beltrano realmente tinha o talento para a vaga. Nunca conseguiu ser o personagem principal de uma série, porém, e por isso nunca conseguiu trabalhar na área. Morreu de infarto, durante o trabalho, num escritório de contabilidade.

Cicrana conseguiu um emprego na agência concorrente e foi diretamente responsável pelo seu sucesso. A empresa cresceu e lucrou muito com ela a bordo. Ela nunca teve, porém, seu talento reconhecido e se aposentou como assistente de criação, com um salário bem abaixo do mercado.

Fulano tinha 4 filhos pra sustentar e estava há mais de 1 ano desempregado. Ele realmente precisava daquele emprego. Esta última rejeição foi a gota d’água. Pegou um dinheiro emprestado com o cunhado, entrou para um curso preparatório e conseguiu passar no concurso para técnico do tesouro. Se suicidou porém, com pouco mais de 5 anos no cargo.

Cicrano, que a série nem mostrou, também estava na fila. Seu currículo foi descartado porque ele tinha um processo trabalhista contra o antigo empregador — que lhe demitiu devendo 4 meses de salário. Nunca mais conseguiu nenhum emprego. Chegou a trabalhar uns meses como camelô mas foi preso e liberado em seguida por vender mercadoria contrabandeada. Morreu de fome ou frio numa madrugada do Junho seguinte.

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Habitantes do planeta Zioxx apresentam um ultimato aos líderes da Terra: que convoquem eleições globais para-diretas*, que entreguem suas armas de destruição em massa e apresentem os culpados pelo genocídos dos Dinossauros.

Temendo o pior, todos os países do planeta resolvem atender as exigências dos alienígenas — exceto um. Assim, Zioxx destrói a Terra. A humanidade agora se restringe a várias pequenas colônias espalhadas pelo universo.

Acontece que essas colônias começaram a causar distúrbios em várias localidades, como por exemplo pequenos furtos, invasão de terrenos privados, etc, portanto a Federação de Zioxx achou melhor realizar a ocupação militar nestas colônias, enquanto elabora uma constituição para as mesmas e organiza eleições para-diretas*.

* Zioxx é uma para-democracia e considera apropriado que todos os planetas do Universo assim sejam. Na para-democracia o governante é eleito através do voto direto da população e o voto para-direto do Deus Supremo, que é revelado através de uma junta de para-normais, estabelecida pelo próprio governo. Essa mesma voz divina influi também nas decisões governamentais.

PS: Ainda não consegui enxergar um fim para essa história. Vamos aguardar mais um ou dois anos para ver se surge uma idéia. A propósito, um ano zioxxiano leva um booom tempo pra passar…


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