Arquivo para fevereiro \08\UTC 2006

Responsum Quae Sera Tamen

(Responsabilidade ainda que tardia)

Vários muçulmanos exigem a retratação do governo dos países em que jornais publicaram charges de um homem barbudo de turbante, o qual foi imediatamente associado a Maomé — não poderia ser o Bin Laden ou qualquer outro? Enfim, o fato é que o governo não pode/deve se desculpar pelo conteúdo editorial de um jornal. E o jornal não quer se desculpar por fazer uso da liberdade de expressão.

Imagina o governo brasileiro pedindo desculpas toda vez que a Veja publicar uma asneira?

Pois bem, o body count já está em 7 no Afeganistão. Sete muçulmanos morreram em protesto contra as charges — a maioria deles nunca as viu, pois nem têm acesso a jornais ou televisão, ficaram sabendo pelo vizinho do cunhado da tia do Muhamed, e resolveram morrer por tão boa causa.

Uma das charges mostrava Maomé gritando lá de cima: “Chega! Chega! Acabaram-se as virgens!!”. Mal sabia o autor que havia criado uma profecia auto-realizável prestes a explodir — literalmente. Nunca um cartunista fez tanto sucesso, ao ponto de desbancar o W.C. Bush do noticiário!! O Dahmer do Malvados deve estar possesso, como ninguém pensou nisso antes? No Ziniguistão tudo seria mais fácil…

É difícil compreender pessoas diferentes. Para alguém nascido no Brasil, por exemplo, fica difícil imaginar um paraíso com 40 virgens. O paraíso de um brasileiro teria mais ou menos 3 cariocas, 2 gaúchas, 2 baianas, 1 paulista, 1 mineira e 1 sueca. Nenhuma delas virgens, ao contrário, 10 profissionais da área.

Essa falta de compreensão ajuda a incendiar a coisa. As relações comerciais entre Dinamarca e Irã foram suspensas. O único artigo dinamarquês que tem vendido bem por lá são as bandeiras (aliás, dica pra quem quer abrir um negócio próprio: vender bandeiras de países ocidentais no Oriente-médio — a cada 3 bandeiras a caixa de fósforo é grátis!). Já ilustrava o amigo André, esse povo tem a mesma disposição para seguir protestos-e-queimações-públicas-de-bandeiras -de-países-judaico-cristãos-ocidentais que os baianos têm para trios-elétricos.

A burguesia dinamarquesa precisa rebolar agora pra conseguir um caviar ou tapete iraniano. Já estes em contrapartida precisam recorrer ao mercado negro para comprar bacalhau dinamarquês ou um livro infantil do Hans Christian Andersen.

E a retaliação não pára por aí. Um aluno turco atirou contra seu professor — que era padre — e garante que não foi por causa da reprovação em matemática. Vários bandidos no Egito estão assaltando turistas em nome da vingança contra os cartoons. Um cofre de banco foi arrombado e esvaziado na Jordânia em protesto.

A mais nova retaliação é o concurso de charges sobre o Holocausto que o jornal iraniano Hamshahri está promovendo. O desenhista que fizer a melhor representação gráfica deste “mito” leva pra casa uma lata de gás sarin.

O fato é que, apesar dos Talibãs, o mundo seguiu adiante. Seguiu para o caminho da liberdade de expressão e liberdade religiosa. De vez em quando um irlandês-católico atira uma pedra num irlandês-protestante, mas geralmente os dois guardam as pedras pra atirar num inglês-viado. E tá tudo bem. O problema é que nesse momento as liberdades estão em choque direto. E já dizia Sartre, a liberdade é o limite ao qual o homem está condenado. Confesso que só agora entendi.

Um jornalista está condenado a defender sua liberdade de expressão. O jornal está condenado a lutar pela liberdade de imprensa. O governo não pode dar pitaco nem sobre o jornalista nem sobre o jornal e está condenado à liberdade de ações de sua autonomia. Os muçulmanos estão condenados a lutar pela sua liberdade religiosa e pelo teor de sua religião — que condena profundamente sátiras contra seus profetas. É o que se chama uma sinuca de bico, a liberdade das bolas vermelhas contra a liberdade das bolas azuis, e você só tem uma tacada pra dar.

Como resolver um impasse desses? Uns vão dizer que o melhor a se fazer é evitar se chegar a um impasse desses.

Não se pode esquecer a relação entre liberdade, limite e responsabilidade. Uma pessoa livre tem responsabilidade sobre seus atos. Além disso, somos responsáveis por zelar pelas nossas liberdades — tanto as individuais quanto as coletivas. Queimar a bandeira de alguém ou zoar o profeta de outrém são exemplos de liberdade de expressão — e de irresponsabilidade de ação.
Abusar da liberdade é agir contra ela. Lembra quando você combinava com seus pais de chegar em casa antes das 23h e quando dava 1h da manhã você entrava na ponta dos pés, de mansinho, pra não acordar ninguém? E quando era pego(a) passava um mês de castigo, sem poder sair. Tudo que você queria era ser independente pra não ter que dar satisfação a ninguém. Você cresceu e agora tem que dar satisfação pro chefe, pro gerente do banco, pro SPC, pra polícia, pra bandido, até pra pedinte no sinal.

A liberdade é uma conquista que herdamos daqueles que lutaram por ela. É muito fácil esquecer o valor daquilo pelo qual não precisamos lutar. Ivan Lessa escreveu no ano retrasado sobre a “mania americana de liberdade” — para a qual têm duas palavras até, “freedom” e “liberty” — e lembra que, se o preço da liberdade é a eterna vigilância, ela custa muito, muito caro. Dinheiro que, claro, sai do bolso do contribuinte. Portanto, não a arrisque a toa.

Ode a uma cidade-cadente
O Rio de Janeiro é uma cidade decadente. Não, não é obra pura e simples da política decadente. Nossos governantes refletem a qualidade da nossa política e a nossa capacidade em elegê-los. Não é por conta da nossa indústria decadente, tampouco, que é mais uma conseqüência do que uma causa. Nem seria tal causa a decadência do nosso ensino e educação, que sofre por falta de verbas. Ainda.
A noite carioca é decadente, desde os melhores botecos (sendo vendidos a paulistas) até as piores boates, restringida pela violência. Nossos parques, praças e jardins são decadentes, abandonados, vazios. A música carioca é decadente, temos que ouvir (sem reclamar!) os sotaques paulistas e mineiros nas rádios.
Nosso futebol é decadente. Mas esse assunto é melhor nem começar… Por causa deste futebol decadente o U2 não vai nem passar por aqui…
Até nossos criminosos são decadentes. Que saudade dos bons tempos, das fugas cinematográficas de helicópteros. Dos assaltos charmosos, dos roubos de taças do mundo.
O Rio é uma cidade decadente. Foi uma estrela primorosa, da bossa, do samba, do cinema, dos cassinos. Uma estrela cadente que chega à beira do horizonte, difícil até de ser enxergada. E não adianta se vestir de branco e andar no calçadão, faixa na mão, pedindo sabe-lá-o-que mais.

Adeus grandes empresas, adeus orçamento da União.
Adeus empregos, refinaria, adeus parques-de-diversão.
Adeus lazer, adeus esportes, adeus segurança.
A gente se vê em São Paulo, BH, Curitiba.
Adeus consulados, museus, adeus esperança.
Adeus qualidade de vida, passeios na Sernambetiba.
Adeus Arpoador, paineiras, Vista Chinesa.
A gente se vê em Brasília, POA, Fortaleza.

Bem vindo o Pan. Que traga esperança.

Coluna social
Hoje (dia 08.02) é meu aniversário! Mande os parabéns, que ainda é de graça.
Quem quiser e puder, chopp Rota 66 na Cobal do Humaitá. A partir das 19:30. Seguido de show da Danny Carvalho.
EDITADO em 09.02: Galera, valeu mesmo pela presença, e ainda mais pela surpresa. Danny parabéns pelo show, aturar uma mesa de bêbados e bêbadas bem do lado não deve ter sido fácil. Espero que a ressaca esteja valendo a pena pra vocês também.

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