Arquivo para setembro \08\UTC 2006

Ligaram o foda-se

Nas últimas semanas recebi milhares de e-mails, ligações e até — acreditem — cartas, daquelas enviadas via Correios. Muitos queriam saber por onde andava, o que estava acontecendo. Mas a maioria só queria mesmo dinheiro emprestado, ou me emprestar dinheiro a juros módicos!

Respondendo a dúvida do primeiro grupo, tive que me ausentar em prol de um projeto muito importante, que exigiu toda minha dedicação e talento. Infelizmente à conclusão dos fatos, saio sem glórias, com a viola no saco, a experiência adquirida, as histórias pra contar, e uma pequena fortuna em material de escritório roubado.

Fui encarregado este ano da defesa do (ex-)planeta Plutão. Fui líder de uma equipe que reunia várias pessoas e muitos advogados. Fizemos um bom trabalho, contamos boas piadas, criamos um excelente material; porém, venceu o lado mais forte, que contava com a mídia — que há muito queria alguma novidade na seção de Astronomia e Astrologia (sim, são uma editoria só) — e o poder econômico — que leva assim os processos de downsizing e reengenharia, tão fora de moda no noso século, para novas fronteiras, onde o homem jamais esteve.

Embora estivesse confiante na vitória, não posso dizer que foi uma perda total. A companheira de Plutão, Caronte, foi reconhecida como legítima e agora tem direito ao plano de saúde. Meu cliente já foi sondado para ter sua história narrada em vários filmes e livros, participar de vários programas de auditório e dar palestras a empresários milionários.

Só que a falta de visão de quem sobe os degraus da escada gerencial do mundo corporativo é tão inexorável quanto a gravitação universal. Às vezes eu imagino que uma nebulosa vai se tornando mais densa no trajeto à gerência. Assim, após a representação deste grande caso, fui transferido para o setor de contabilidade de caixa 2 para candidatos a deputado federal, conhecido como a carne de pescoço das atuariais.

Assim, estou num imenso dilema ético, face a um abismo profissional: comunico à alta gerência da corporação a minha discordância quanto a alocação, enquanto procuro por novas encheções-de-saco e problemas (quer dizer, novas oportunidades e desafios); ou, se procuro por novas encheções-de-saco e problemas enquanto comunico à alta gerência da corporação a minha discordância quanto a alocação.

Jerry (como foi batizado o rato aqui do escritório) tem me aconselhado muito. Ele acredita que a ética profissional não é uma coisa universal. Um dos autores do clássico Quem Mexeu no Meu Queijo, ele afirma que cada civilização tem suas próprias crenças e axiomas, geralmente derrubados pela geração seguinte. Por exemplo, um escravo da construção das pirâmides acharia engraçado se alguém insinuasse que um dia seria obrigatório por lei, pausa para almoço, banheiro, água e café no ambiente de trabalho. Da mesma forma que eu acharia engraçado se o técnico virasse para o ponta-esquerda instantes antes do apito inicial e dissesse que, após profunda meditação tântrica, acha melhor ele jogar no gol.

Indignações à parte, Jerry insiste que, num processo relacional como o emprego, face aos limites da dialética entre o trabalho e a gerência (isto é, entre o esforço e o esporro), vale a regra de ouro: os incomodados que se mudem.

Era o empurrão que eu precisava.

Fiquei sabendo de uma vaga e enviei meu currículo para o grande amigo Caixa D’Ágüa, conhecido como “Caxágua”. Grande homem, grande brasileiro. Me faltam adjetivos. Ele veio a falecer no dia seguinte, pouco antes de anunciarem a contratação do Dunga, que já botou 4 dos 6 anões pra dentro (no mau sentido), quebrando outra regra de ouro: funcionário indica 1, gerente indica 2 e diretor indica 3 no máximo.

Confesso que a notícia me deixou muito triste (a do Dunga, não a do Caxágua). Estava animado com a possibilidade de ser mais um técnico de seleção brasileira que não sabe nada de futebol.

Foi então que surgiu, no meio da minha pilha de correspondência não lida (leitores, um dia eu ponho em dia!) uma carta em japonês com a firma de uma empresa muito conhecida. Não precisei de tradução para reconhecer o gordo cheque e a passagem de ida e volta para Tóquio, anexados à carta. Mas também não é essa a oportunidade que eu procuro… Mil perdões, meu amigo Kutaragi, mas porta-voz do projeto Playstation 3, a essas alturas?!?! Meu japonês não dá pro gasto. Mas até o PS4 eu chego lá!

Outras possibilidades apareceram, seja por carta, e-mail ou nos Classificados. Mas todas caíam num outro problema clássico: eu teria muito a contribuir. Não se enganem, leitores, nunca aceitem um desafio ao qual você tem muito a agregar. Lembre do caso daquele funcionário que foi demitido logo após a contratação na fábrica de automóveis que inventou o limpador de pára-brisas, por insistir que estes deveriam ser posicionados do lado de fora. Terceira regra de ouro do dia: em terra de cego, quem tem um olho tá errado (ou vale metade, como interpreta minha ex-tia).

O desespero bateu. Confesso que já vejo os balanços desbalanceados e as duplicatas duplicadas se acumulando na minha mesa, aguardando o carimbo, a rubrica, a xerox autenticada das 5 vias… Não, não vou desistir!

O importante é que conseguí priorizar minhas pendências e abastecer meus 4 leitores com notícias do front. Rumo agora para os Estados Unidos, negociar a creche da filha de Tom Cruise e Katie Holmes. O lance inicial é US$10 mil…

Até a coluna que vem, com a Retrospectiva 2006!

Eleições 2006 – participe… mas não seja cúmplice!Face a vários e-mails que circulam, vale esclarecer que de acordo com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Marco Aurélio Mello, não existe (infelizmente) qualquer possibilidade de uma eleição ser anulada pelo número excessivo de votos brancos ou nulos que, para fins eleitorais, são iguais e medidos apenas para estatística. Assim, uma eleição só seria anulada se todos os votos fossem brancos ou nulos (ou seja, se nem os próprios candidados votassem neles mesmos). Não vou colocar o link aqui, mas existe um bom site no Terra a respeito deste assunto.

Contribuindo ainda mais para a grade festa da Democracia brasileira, está disponível abaixo um simulador de urna eletrônica, para que você não tenha dúvidas na cabine e possa ir mais cedo à praia:

Para Deputado Federal voto para:

9901 – Um estuprador trabalhista
9902 – Um estuprador democrata-cristão
9903 – Um estuprador social-democrata
9904 – Um estuprador ecologista
Branco-Todos os anteriores

Digite o número do seu candidato e puxe a cordinha para enviar seu voto!


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