Arquivo para março \16\UTC 2006

E a gripe veio do espaço

Zomir era um funcionário exemplar do Laboratório de Pesquisa e Exploração Exterior, lotado no setor de Vida Primata e Inteligente. Chegava pontualmente na Segunda, saía pontualmente na Sétima e acessava os emails na Oitava, Sábado e até Domingo às vezes. Sua especialidade era Nano-Computação Viral, o que pagava muito bem especialmente para quem topava trabalhar em campo.A vida de pesquisador embarcado não era das mais fáceis. Comer cereal colorido em caixinha, tomar um descafé sintético horroroso e beber água re-oxigenizada não eram exatamente refeições ideais pra alguém com tamanho apetite e apreciação culinária.

Ele tentava esquecer isso ouvindo seu iPod enquanto se concentrava no seu projeto. Era, ou melhor, seria tarde da noite se estivessem em casa, quando Thuir6 se aproximou puxando assunto.

– Estamos passando por Centauri Distante nesse momento. Espero que você não tenha comido muito no jantar… – disse, reticente.
– Por quê? A plataforma vai sacudir?
– Vento solar de Nêmesis. Na posição que estamos ele é terrível. Tempestades em toda seção esférica. O estagiário no ano passado vomitou o cubículo todo. Ninguém aguentou o cheiro e a gente teve que abrir as janelas.
– Só agradeço por não estarmos indo pro Sistema Solar, dizem que aquela porcaria do Helius causa câncer… Comentou Xiaut, que chegara momento antes.
– Ah, mas têm suas vantagens… céu azul, praia, mulheres bronzeadas…
– Você já esteve lá ?!?! – Zomir arregalou os olhos.
– Sim, pô, foi naquela auditoria do YbRT22, aqueles merdas do governo encheram nosso saco as 89 horas do dia e… – Nesse momento a plataforma começa a balançar – Ih, pronto, começou. Vou aproveitar pra deitar, não consigo falar com esse sacolejo todo. Me dá dor de ouvido.
– É, acho que vou fazer o mesmo. Até mais – despediu-se Zomir.

Mas ele não planejava dormir. Tinha muito interesse pela Via Láctea, especialmente o Sistema Solar. Durante toda a sua infância ele ouviu as histórias da guerra entre Helius e Nêmesis e cresceu ficcionado pelo assunto.

Impressionava a idéia de como a vida se persistia no Sistema Solar, mesmo com os ataques sistemáticos de Nêmesis. A grande Evasão Marciana de 1.234, as Grandes Destruições Terrenas, a Grande Mancha Vermelha de Júpiter, tudo era tão diferente do que conhecia. Lembrava das histórias do avô, que dirigia uma plataforma-tanque que, ao se chocar com um asteróide vazou 3 trilhões de litros de óleo na Terra. Por sorte a maior parte caiu no deserto, onde poucos Dinossauros se arriscavam. Ah, os Dinossauros… Tinha tanta vontade em conhecê-los. Eles eram famosos pela inteligência, por seu pacifismo e sua habilidade diplomática. Foram os Dinossauros por exemplo que negociaram a atual órbita do Haley, de forma a democratizar a distribuição de água pelos planetas do 4o. Universo.

Se ao menos houvesse alguma chance de visitar a Terra e conhecer seus ídolos… Mas como? Teria que haver uma maneira…

Adormeceu em meio a tantos pensamentos.

– Zomir, acorda! Acorda criatura! Levanta imprestável!
– Ah, o quê? Pô, Xiaut, parece até minha esposa mais nova…
– Vamos rapaz, não tá ouvindo o alarme de incêndio? Anda!

Zomir vestiu-se e seguiu Xiaut em silêncio, tenso com a situação de emergência e surpreso com a serenidade do companheiro. Xiaut, o mais velho a bordo, era Engenheiro Espaçonáutico, seu registro profissional lhe permitia contruir naves, plataformas, consertar televisão e projetar casas de até 18 andares. Dentro do projeto era responsável pela Segurança de Navegação.

Chegaram à sala de emergência e se juntaram a Thuir6. O alarme continuava.
– E pensar que eu troquei a bolsa de pesquisa em Andrômedra 9 por isso. Lá eu não fazia nada e ainda estava a menos de 10 anos-luz de casa… Choramingou Xiaut, logo após sentar-se.
– Tá querendo se aposentar já, velho? – Provocou Thuir6. Se na iniciativa privada tá puxado assim imagina só no emprego público…
– Vocês querem me explicar o que está acontecendo? – Zomir perguntou, quase que aos gritos.
– O sistema detectou um foco de incêndio e tá tentando resolver o problema. A gente tem que permanecer aqui até o sinal de que tudo está ok novamente.
– Mas onde foi esse incêndio?
– Eu sei lá, o computador que se resolva. Eu só saio daqui quando essa droga parar de apitar…

Assim que Thuir6 completou a frase o alarme foi interrompido por um anúncio do sistema:

“Mensagem 87742: sistema de propulsão precisa de reparo. Mensagem 87749: sistema de controle de incêndio precisa de reparo. Mensagem 44332: Rumo ajustado para unidade de assistência técnica S22X332B. Sistemas em modo de segurança. Todos os postos de trabalho devem ser retomados. A Kronne Engenharia agradece a preferência, tenha um bom dia”.

– Cacete, agora a gente vai praquele fim de mundo! – Xiaut levou as quatro mãos à cabeça.
– Que fim de mundo? Onde fica S22X332B? – Zomir interrogava, perdido.
– Enceladus, lua de Saturno, Sistema Solar Helius – Thuir6 respondeu enquanto abria a porta da sala de emergência.
– Como é possível? Não tem uma oficina mais próxima? – Xiaut não se conformava.
– A gente acabou de passar por uma em Centauri Distante, mas eles não aceitam nosso vale-reparo nem o ticket-combustível, velho.
– Porra, ninguém é sócio do Space Club? Merda, pra quê eu fui sair de Andrômedra 9…

Zomir sentiu um frio na barriga. O destino o colocava cada vez mais próximo ao Sistema Solar Helius e os Dinossauros da Terra. Enquanto a plataforma estivesse em reparo ele poderia pegar um táxi até lá. Talvez até encontrasse alguém que tivesse conhecido seu avô.Retornou ao seu cubículo, impaciente, e tentava retornar ao trabalho quando foi novamente interrompido:

– Zomir – gritou Thuir6 – preciso que você prepare um email pra S22X332B. Avisa a nossa situação e anexa o arquivo de log do sistema. Vou pegar um pouco do lubrificante da plataforma e você manda junto também, o Xiaut falou que a máquina tá rangendo e que o óleo de estar baixo, a gente aproveita a parada e troca.
– Certo. É pra usar o logo da empresa? Eu vou ter que baixar de novo do site porque eu apaguei ontem por acidente…
– Porra, como você apagou um arquivo por acidente?
– É essa merda de sistema operacional! Eu tava jogando Paciência e me distraí… Fui fazer backup e ao invés de copiar eu movi o arquivo.
– Não tem como restaurar do backup então?
– Restaurar do backup?? Eu não sei fazer isso, só sei copiar para o backup…
– Tá, pode baixar então. Vou desligar o firewall, mas me avisa assim que acabar porque não quero nenhum adolescente invadindo o servidor… ainda mais nesses confins do Universo.
– Pode deixar.

Zomir via claramente agora a sua chance de conhecer os Dinossauros. Com o firewall desligado ele poderia enviar um email para a Terra também, reservando o táxi e o hotel. Como Zomir não sabia qual o protocolo era usado na Terra, ele usou um bem antigo – criou um nano-spam, um robozinho feito de hemaglutinina e neuraminidase que espalha ondas magnéticas ao redor, copiando-se ao receber uma mensagem de “ok” e se auto-destruindo ao receber uma mensagem de “páre” ou “kill”.

Baixado a logo, umas fotos de mulher pelada e alguns mp13’s, Zomir mandou o email para oficina e para a Terra. Chamou Thuir6 pelo rádio:

– Prontinho, pode subir o firewall.
– Beleza, fica apertando F5 aí até chegar a confirmação dos caras.

Agora era esperar pela resposta. Já podia se imaginar na Terra… Praia, lava vulcânica, broto de bambú…

Algum espaço-tempo depois, a mensagem de Zomir — que tinha como subject “H5N1” (Hospedagem de 5 Noites para 1) — rompe a atmosfera e chega à Terra do século XXI. Caiu no sudeste asiático, bem em cima de um grão de milho. A estrutura molecular não fornecia nenhuma resposta compreensível e o nano-spam resolveu então continuar emitindo suas mensagens. Até que, no pulmão de uma galinha, finalmente, os íons de carbono e oxigênio deram o sinal de “ok” e o email começou a se propagar.

Zomir não sabia, mas ele foi responsável por uma das pragas mais devastadoras da história da Terra, ficando atrás apenas da Gripe Espanhola – que surgiu quando um outro pesquisador desastrado recebeu um vírus através de um email que prometia fotos da Greta Garbo. Mas isso é outra história…

Fracasso dá lucroA Oi comprou o dial da Rádio Cidade do Rio (102.9 FM) para lançar a Oi FM – uma rádio medíocre de música chata e com a programação mais irritante dos últimos tempos.
Muita gente anda se perguntando qual seria o motivo de se comprar uma rádio com um grande conjunto de ouvintes fiéis de determinado estilo (musical e de programação) e colocar no seu lugar algo completamente diferente, acabando assim com a audiência e tendo que compor uma nova. Afinal, se era pra formar uma audiência diferente, não seria o caso de comprar outra rádio de menor expressão, ou quem sabe um dial FM disponível?

A resposta é muito simples, meus caros, mas só quem fez MBA e tem alguma experiência consegue visualizar.

Foi-se o tempo em que vender um produto com uma margem razoável, agradar o consumidor e desenvolver os funcionários era a estratégia para que as empresas ganhassem dinheiro. Hoje — aliás, já faz algum tempo — o segredo é criar um grande ‘case’ de fracasso, prejuízo, escândalo, etc. e ganhar dinheiro vendendo livros e fazendo palestras sobre o assunto. Vide Enron, MCI, a bolha da Internet, o Tablet PC, etc.

É uma enorme vantagem tributária para empresas também ter um investimento que traga prejuízo. Caso contrário, que empresa iria patrocinar qualquer clube de futebol brasileiro?

Portanto, ao se deparar com uma empresa que presta um serviço horrível, que está se lixando para seus clientes e funcionários, ou que enfia goela abaixo um produto que não faz o menor sentido, prepare-se: anote numa agenda e lembre de nunca comprar qualquer livro sobre o ‘case’.


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