Archive for the 'contos' Category

Ficção sem Nome (cont.)

No espisódio anterior nossos amigos Dionis e Molony conversavam sobre sua situação, na Infantaria Embarcada, proximidades de Saturno. Alguns dos leitores (dois) se interessaram em escrever o final da história. Todos os (dois) finais são muitos bons, mas nenhum tão bom quanto o meu; portanto optei por publica-lo.

Como assim não é democrático? Claro que é. O que aconteceu foi, digamos, uma reeleição do meu mandato como escritor da história.

Assim, sem mais, segue o fim desse intrigante conto:

(continuação:)

Molony coçou a cabeça, abriu a boca pra falar qualquer coisa mas foi interrompido pelo violento alarme sonoro (que lembrava a vinheta de um antigo jornal da televisão – mas como ele poderia saber?):

– Pa papa papa papapaaam… pa papa papa papa papaaam… thurum.

Em seguida ouviu-se a mensagem:

– Atenção funcionários ASeg e ADef, rotina 54, funcionários ASeg e ADef, rotina 54.

Dionis e Molony já estavam em seus postos antes do fim da mensagem. Colocaram os fones de ouvido no pescoço e apertaram ctrl+alt+del em suas estações. Molony tirou o telefone da base, e discou um número. Dionis digitava freneticamente.

– Radar maximizado no terminal 2 – gritou Dionis.
– Ok – rebateu Molony.
– Sistema de Danos ativo e operante, maximizado no terminal 3 – gritou Dionis.
– Ok – gritou Molony de volta.
– …
– Que houve?
– Lembra a senha do Banco de Dados Balístico?
– $ER334>8C(
– Como vocês decoram essa porra…
– Abriu o SisBal no terminal? – Interrompeu Molony, visivelmente tenso.
– Tá, SisBal, terminal 1, máx.
– Alô! Sgt. Molony, Infantaria ER-334, em rotina 54! Gritou Molony para o telefone.

Mas do outro lado da linha, uma voz rouca e calma contrastava com todo o ambiente ao redor de Molony. A voz tranqüila disse suavemente, “Malony”, uma pausa leve, “Tira seu pessoal daí”. “Boa sorte”, finalizou.

Molony baixou o telefone e olhou ao fundo a janela. Uma luz branca, linda, vinha em sua direção. Dionis virou-se para Molony e só então percebeu a janela cada vez mais clara. Abriu bem os olhos pela última vez.

Seu último pensamento foi:

– Azeus filho de uma p…

FIM

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Ficção sem Nome

Este é o primeiro post de uma série sobre Ficção 2.0. Depois do Projeto #microconto via Twitter, voltamos ao blog pra começar uma história e deixar a cargo dos leitores terminá-la. Assim todo mundo ganha. O autor escreve menos, o leitor acha que participa e quem sabe eu não apareço nessas revistas contando sobre o novo processo criativo derivado da web 2.0? Acreditem, se eu ganhar algum, prometo esquecê-los rapidinho…

Segue nossa primeira história:

– Cacete!
– Que houve?
– Nada, não. Droga de frio – reclamou Dionis, esfregando os braços. Droga de friaca, onde a gente tá afinal, Plutão?
– Na verdade estamos perto de Saturno. Dá pra ver o anel? – Brincou o sargento Molony.
– Dô não, dô porra nenhuma. Muito menos pra ver lixo em órbita. Vou pegar um café.
– Pega pra mim também.

Dionis volta, dois cafés na mão.

– Cheguei lá tinha acabado, tive que fazer um novo. Tá, fresco?
– Engraçadinho. Seu café é uma merda, mas pelo menos tá quente.
– Quando esse frio vai diminuir?
– Não vai, porque iria? Estamos cada vez mais longe do Sol…
– Eu sei, porra, mas quando a gente volta?
– Ah, não sei…
– Sabe sim, só não pode falar.

Molony sorriu levemente, levando o café à boca em seguida.

– Porra, ficar de plantão nessa porra é maior furada – Dionis não se conformava.
– Quem mandou entrar pra Infantaria…
– Eu fiz prova pra piloto, não passei. E você? Todo estudado e entendido aí, porque tá nessa roubada?
– Sei lá… Pára de reclamar. Segura um cigarro aí.
– Pode fumar aqui??
– Poder não pode… – Molony acende o cigarro – Mas se você não contar, eu também não conto.

Dionis dá duas baforadas e se enconsta. Olha pela janela, distante, e pergunta quase que para si mesmo:

– Você lembra do Azeus?
– Aquele baixinho, do 3o. Regimento?
– Ele mesmo. Lembra que ele tinha um irmão na Inteligência, e que enchia o saco dizendo que ia ser nosso comandante um dia… Lembra? Como era folgado aquele pilantra…
– Mas por que você tá falando dele?
– Sei lá… nunca mais ouvi falar dele.
– Acho que morreu naquela operação em Marte, aquele cerco uns 2 anos atrás.
– Pertinho de casa… A gente sai um dia e não sabe se volta… – Dionis continuava olhando pela janela.

(continua…)

King Kong na terra dos Simpsons

Dizem que quem não conhece o passado está condenado a cometer os mesmos erros repetidas vezes.

Mais estranho é que, mesmo conhecendo bem o passado, existe gente com essa tendência masoquista de errar tudo de novo e outra vez. Eu mesmo, de tempos em tempos, cismo que posso fazer determinadas coisas que só me causam estresse e dor de cabeça, não necessariamente nessa ordem.

E quem foge de cometer os mesmos erros, acaba por conhecer erros novos. O que, convenhamos, é o que faz a vida valer a pena.

Todo mundo deve ter visto pelo menos uma das versões do filme King Kong (este, ou este, ou este). De como ele é retirado de sua vida de rei na sua pequena e remota ilha para ser atirado aos lobos e tubarões da grande e movimentada Nova Iorque.

O que poucos sabem é que, na verdade, King Kong não foi capturado, por assim dizer. Conste para o bem da verdade que o gorilão-rei foi convencido a tentar carreira na Broadway, graças à lábia do capitão do navio e a sua ambição de ver o mundo e influenciar toda uma geração. O resto da história é uma catástrofe, seguida de uma tragédia.

Após o hype e seus 15 minutos de fama, o macacão logo caiu no esquecimento – em parte graças à estréia de O Fantasma da Ópera. Num turbilhão de depressão, drogas e alcoolismo, Kong seqüestra sua ex-mulher enquanto é perseguido por metade da NYPD.

Todos choram ao ver o simpático gorila de 10 metros de altura ser alvejado pelos modernos aviões da US Air Force, mas a parte mais triste pra mim ocorre pouco antes: o início da subida ao Empire States. Esse é o momento decisivo. Enquanto estava nas ruas, Kong podia ser imobilizado, acertado com tranqüilizantes, sei lá. Mas após o 15º andar, não tem mais volta. Ele sabe que vai morrer.

Muitos se perguntam se ele fez isso para ver um último pôr do sol. Por que ele não decidiu simplesmente fazer as malas e voltar pra seu pequeno reino distante, fazer o milésimo gol e encerrar a carreira num time de várzea qualquer?

O fato é que Kong sabia que estava condenado a cometer os mesmos erros. E a morte não é opcional.

Lembrei do Big Ape em Big Apple porque lembrei de mim numa terra distante, perdido numa noite fria.

Era o primeiro dia de neve do inverno, acompanhado da minha primeira noite de neve na vida. Estava ansioso pra voltar ao apartamento – seria a segunda vez que cumpriria tal trajeto – mas a cidade era bem sinalizada, então não tinha erro.

Saí do estacionamento, peguei a esquerda e segui até a rua principal. No sinal, entrei à direita. “Beleza, é só esperar passar a 18 mile e manter a esquerda, contornar na primeira que aparecer”.

Quando finalmente avistei uma placa, eu congelei. Coberta de neve, o nome da rua era impossível de enxergar. Todas as placas de trânsito estavam assim, digamos, em branco.

Lutei muito até me considerar perdido. No primeiro posto de gasolina que avistei, parei e corri ao telefone.

Ah, meu primeiro contato com uma noite a -11° C…

Fui procurar o telefone do Paul para pedir ajuda. Mas era difícil tirar o papel do bolso com as luvas cobrindo os dedos e tremendo como uma máquina de lavar velha. Como as luvas de longe não eram apropriadas praquele frio, resolvi arrancá-las.

Pronto, telefone na mão, seguiu-se a tarefa de discar os números. Lambia os dedos entre uma tecla e outra. Errei só duas vezes até finalmente acertar toda a sequência.

Pontas dos dedos doloridas, é hora de colocar as moedas. “Minha nossa, se uma cair no chão coberto de neve eu não acho mais e não consigo ligar pra ninguém”. Pensei pela segunda vez que talvez fosse morrer ali… Ensaiei uma posição mais digna para ser encontrado.

A última moeda encaixa perfeitamente, o telefone chama, ele atende. “Paul, sou eu. Acho que tô perdido”. Um instante doloroso de silêncio, ele responde: “Humm, já tô em casa, do outro lado da cidade… Faz o seguinte, tenta se informar por aí, se você continuar perdido me liga de novo”.

Pra quê mencionar que minhas moedas tinham acabado, ou que minhas unhas estavam roxas, ou que minha cabeça já doía (novidade…) de frio?

Entrei na lojinha do posto. Até já tinha esquecido como era bom se sentir aquecido… O rapaz (com cara de paquistanês), com a ajuda de uma menina (com cara de americana) começa a me explicar. Dada minha expressão (com cara de “entendi xongas”), começam a desenhar um mapinha, perguntam se eu era mexicano – “Não, brasileiro” – me entregam o papel e desejam boa sorte. “Qualquer problema, volta aqui”. Eu não sabia nem se conseguiria voltar.

A noite cinza e branca avançava enquanto eu entrava no carro.

Eu ainda não sabia, mas a bonita ruela, típica dos subúrbios americanos, com suas caixas de correio e enfeites de Natal, iria aparecer logo em seguida e me guiar para o apartamento.

Pensando bem, alguns erros a gente se arrepende é de não poder cometer mais vezes.

E a gripe veio do espaço

Zomir era um funcionário exemplar do Laboratório de Pesquisa e Exploração Exterior, lotado no setor de Vida Primata e Inteligente. Chegava pontualmente na Segunda, saía pontualmente na Sétima e acessava os emails na Oitava, Sábado e até Domingo às vezes. Sua especialidade era Nano-Computação Viral, o que pagava muito bem especialmente para quem topava trabalhar em campo.A vida de pesquisador embarcado não era das mais fáceis. Comer cereal colorido em caixinha, tomar um descafé sintético horroroso e beber água re-oxigenizada não eram exatamente refeições ideais pra alguém com tamanho apetite e apreciação culinária.

Ele tentava esquecer isso ouvindo seu iPod enquanto se concentrava no seu projeto. Era, ou melhor, seria tarde da noite se estivessem em casa, quando Thuir6 se aproximou puxando assunto.

– Estamos passando por Centauri Distante nesse momento. Espero que você não tenha comido muito no jantar… – disse, reticente.
– Por quê? A plataforma vai sacudir?
– Vento solar de Nêmesis. Na posição que estamos ele é terrível. Tempestades em toda seção esférica. O estagiário no ano passado vomitou o cubículo todo. Ninguém aguentou o cheiro e a gente teve que abrir as janelas.
– Só agradeço por não estarmos indo pro Sistema Solar, dizem que aquela porcaria do Helius causa câncer… Comentou Xiaut, que chegara momento antes.
– Ah, mas têm suas vantagens… céu azul, praia, mulheres bronzeadas…
– Você já esteve lá ?!?! – Zomir arregalou os olhos.
– Sim, pô, foi naquela auditoria do YbRT22, aqueles merdas do governo encheram nosso saco as 89 horas do dia e… – Nesse momento a plataforma começa a balançar – Ih, pronto, começou. Vou aproveitar pra deitar, não consigo falar com esse sacolejo todo. Me dá dor de ouvido.
– É, acho que vou fazer o mesmo. Até mais – despediu-se Zomir.

Mas ele não planejava dormir. Tinha muito interesse pela Via Láctea, especialmente o Sistema Solar. Durante toda a sua infância ele ouviu as histórias da guerra entre Helius e Nêmesis e cresceu ficcionado pelo assunto.

Impressionava a idéia de como a vida se persistia no Sistema Solar, mesmo com os ataques sistemáticos de Nêmesis. A grande Evasão Marciana de 1.234, as Grandes Destruições Terrenas, a Grande Mancha Vermelha de Júpiter, tudo era tão diferente do que conhecia. Lembrava das histórias do avô, que dirigia uma plataforma-tanque que, ao se chocar com um asteróide vazou 3 trilhões de litros de óleo na Terra. Por sorte a maior parte caiu no deserto, onde poucos Dinossauros se arriscavam. Ah, os Dinossauros… Tinha tanta vontade em conhecê-los. Eles eram famosos pela inteligência, por seu pacifismo e sua habilidade diplomática. Foram os Dinossauros por exemplo que negociaram a atual órbita do Haley, de forma a democratizar a distribuição de água pelos planetas do 4o. Universo.

Se ao menos houvesse alguma chance de visitar a Terra e conhecer seus ídolos… Mas como? Teria que haver uma maneira…

Adormeceu em meio a tantos pensamentos.

– Zomir, acorda! Acorda criatura! Levanta imprestável!
– Ah, o quê? Pô, Xiaut, parece até minha esposa mais nova…
– Vamos rapaz, não tá ouvindo o alarme de incêndio? Anda!

Zomir vestiu-se e seguiu Xiaut em silêncio, tenso com a situação de emergência e surpreso com a serenidade do companheiro. Xiaut, o mais velho a bordo, era Engenheiro Espaçonáutico, seu registro profissional lhe permitia contruir naves, plataformas, consertar televisão e projetar casas de até 18 andares. Dentro do projeto era responsável pela Segurança de Navegação.

Chegaram à sala de emergência e se juntaram a Thuir6. O alarme continuava.
– E pensar que eu troquei a bolsa de pesquisa em Andrômedra 9 por isso. Lá eu não fazia nada e ainda estava a menos de 10 anos-luz de casa… Choramingou Xiaut, logo após sentar-se.
– Tá querendo se aposentar já, velho? – Provocou Thuir6. Se na iniciativa privada tá puxado assim imagina só no emprego público…
– Vocês querem me explicar o que está acontecendo? – Zomir perguntou, quase que aos gritos.
– O sistema detectou um foco de incêndio e tá tentando resolver o problema. A gente tem que permanecer aqui até o sinal de que tudo está ok novamente.
– Mas onde foi esse incêndio?
– Eu sei lá, o computador que se resolva. Eu só saio daqui quando essa droga parar de apitar…

Assim que Thuir6 completou a frase o alarme foi interrompido por um anúncio do sistema:

“Mensagem 87742: sistema de propulsão precisa de reparo. Mensagem 87749: sistema de controle de incêndio precisa de reparo. Mensagem 44332: Rumo ajustado para unidade de assistência técnica S22X332B. Sistemas em modo de segurança. Todos os postos de trabalho devem ser retomados. A Kronne Engenharia agradece a preferência, tenha um bom dia”.

– Cacete, agora a gente vai praquele fim de mundo! – Xiaut levou as quatro mãos à cabeça.
– Que fim de mundo? Onde fica S22X332B? – Zomir interrogava, perdido.
– Enceladus, lua de Saturno, Sistema Solar Helius – Thuir6 respondeu enquanto abria a porta da sala de emergência.
– Como é possível? Não tem uma oficina mais próxima? – Xiaut não se conformava.
– A gente acabou de passar por uma em Centauri Distante, mas eles não aceitam nosso vale-reparo nem o ticket-combustível, velho.
– Porra, ninguém é sócio do Space Club? Merda, pra quê eu fui sair de Andrômedra 9…

Zomir sentiu um frio na barriga. O destino o colocava cada vez mais próximo ao Sistema Solar Helius e os Dinossauros da Terra. Enquanto a plataforma estivesse em reparo ele poderia pegar um táxi até lá. Talvez até encontrasse alguém que tivesse conhecido seu avô.Retornou ao seu cubículo, impaciente, e tentava retornar ao trabalho quando foi novamente interrompido:

– Zomir – gritou Thuir6 – preciso que você prepare um email pra S22X332B. Avisa a nossa situação e anexa o arquivo de log do sistema. Vou pegar um pouco do lubrificante da plataforma e você manda junto também, o Xiaut falou que a máquina tá rangendo e que o óleo de estar baixo, a gente aproveita a parada e troca.
– Certo. É pra usar o logo da empresa? Eu vou ter que baixar de novo do site porque eu apaguei ontem por acidente…
– Porra, como você apagou um arquivo por acidente?
– É essa merda de sistema operacional! Eu tava jogando Paciência e me distraí… Fui fazer backup e ao invés de copiar eu movi o arquivo.
– Não tem como restaurar do backup então?
– Restaurar do backup?? Eu não sei fazer isso, só sei copiar para o backup…
– Tá, pode baixar então. Vou desligar o firewall, mas me avisa assim que acabar porque não quero nenhum adolescente invadindo o servidor… ainda mais nesses confins do Universo.
– Pode deixar.

Zomir via claramente agora a sua chance de conhecer os Dinossauros. Com o firewall desligado ele poderia enviar um email para a Terra também, reservando o táxi e o hotel. Como Zomir não sabia qual o protocolo era usado na Terra, ele usou um bem antigo – criou um nano-spam, um robozinho feito de hemaglutinina e neuraminidase que espalha ondas magnéticas ao redor, copiando-se ao receber uma mensagem de “ok” e se auto-destruindo ao receber uma mensagem de “páre” ou “kill”.

Baixado a logo, umas fotos de mulher pelada e alguns mp13’s, Zomir mandou o email para oficina e para a Terra. Chamou Thuir6 pelo rádio:

– Prontinho, pode subir o firewall.
– Beleza, fica apertando F5 aí até chegar a confirmação dos caras.

Agora era esperar pela resposta. Já podia se imaginar na Terra… Praia, lava vulcânica, broto de bambú…

Algum espaço-tempo depois, a mensagem de Zomir — que tinha como subject “H5N1” (Hospedagem de 5 Noites para 1) — rompe a atmosfera e chega à Terra do século XXI. Caiu no sudeste asiático, bem em cima de um grão de milho. A estrutura molecular não fornecia nenhuma resposta compreensível e o nano-spam resolveu então continuar emitindo suas mensagens. Até que, no pulmão de uma galinha, finalmente, os íons de carbono e oxigênio deram o sinal de “ok” e o email começou a se propagar.

Zomir não sabia, mas ele foi responsável por uma das pragas mais devastadoras da história da Terra, ficando atrás apenas da Gripe Espanhola – que surgiu quando um outro pesquisador desastrado recebeu um vírus através de um email que prometia fotos da Greta Garbo. Mas isso é outra história…

Fracasso dá lucroA Oi comprou o dial da Rádio Cidade do Rio (102.9 FM) para lançar a Oi FM – uma rádio medíocre de música chata e com a programação mais irritante dos últimos tempos.
Muita gente anda se perguntando qual seria o motivo de se comprar uma rádio com um grande conjunto de ouvintes fiéis de determinado estilo (musical e de programação) e colocar no seu lugar algo completamente diferente, acabando assim com a audiência e tendo que compor uma nova. Afinal, se era pra formar uma audiência diferente, não seria o caso de comprar outra rádio de menor expressão, ou quem sabe um dial FM disponível?

A resposta é muito simples, meus caros, mas só quem fez MBA e tem alguma experiência consegue visualizar.

Foi-se o tempo em que vender um produto com uma margem razoável, agradar o consumidor e desenvolver os funcionários era a estratégia para que as empresas ganhassem dinheiro. Hoje — aliás, já faz algum tempo — o segredo é criar um grande ‘case’ de fracasso, prejuízo, escândalo, etc. e ganhar dinheiro vendendo livros e fazendo palestras sobre o assunto. Vide Enron, MCI, a bolha da Internet, o Tablet PC, etc.

É uma enorme vantagem tributária para empresas também ter um investimento que traga prejuízo. Caso contrário, que empresa iria patrocinar qualquer clube de futebol brasileiro?

Portanto, ao se deparar com uma empresa que presta um serviço horrível, que está se lixando para seus clientes e funcionários, ou que enfia goela abaixo um produto que não faz o menor sentido, prepare-se: anote numa agenda e lembre de nunca comprar qualquer livro sobre o ‘case’.

Ordem, Progresso y otras cositas más

Estava assistindo o Fla x Flu na quarta, durante o show de uma amiga. É difícil se concentrar nas duas coisas ao mesmo tempo, mas quando o Pet bateu a falta e balançou a rede, o grito não foi em coro com a música. O juiz manda voltar – alívio – e então Tuta, com a mão e impedido, balança a rede novamente. Antes valesse o primeiro…Nesse momento de tristeza, lembrei-me do discurso do Severino. Triste, forte, emocionante. Tive pena dele nesses últimos dias, e não falo brincando, é sério.

Porra, pena do Severino? É. Por que não?

Lembre que o cara foi colocado alí, presidente da câmara, numa “travessura” dos deputados, pelo desprezo do governo com relação à casa, principalmente ao tal “baixo-clero”. O tal nariz empinado do Zé Dirceu, que até voltou à discussão durante a(s) CP(M)I(s).

Sim, uma travessura, daquelas que a criança faz pra chamar a atenção da mãe. Tipo colocar fogo no cabelo, ou preparar uma armadilha de urso para o irmão mais novo, ou dar descarga no remédio pra pressão da avó. Inocente assim.

Mas a gente mais cedo ou mais tarde aprende que fazer uma fogueira com meio litro de gasolina, e jogar nela um pneu velho amarrado com 5 “cabeções-de-nego” tem conseqüências… E alguém vai ter que arrumar água pra apagar o incêndio que já se alastra pela cerca de madeira do vizinho.

Foi assim com Severino. A piada passou, perdeu a graça, virou um leve constrangimento. Era necessário tirar ele dali. Não antes de humilhá-lo, como se fosse responsável pela própria eleição, seja pra deputado federal, seja pra presidente da câmara.

Sim, era necessário to Kill Severino.

Assim foi batizada a operação da polícia federal para eliminar o deputado federal pernambucano. A primeira tentativa, em conjunto com o FBI e a CIA, foi mandá-lo para Nova York em pleno 11 de Setembro. Ele passou o dia inteiro na torre do Empire States. Mas nada.

Então ofereceram ao sr. Cavalcanti e sua esposa um passeio de carro aberto pelas ruas do Brooklin, Harlem, Soho, Tribeca, com direito a um almoço em Hell’s Kitchen. Severino, esperto, trocou esse circuito por um passeio de metrô na Z train Queens bound.

Incansável, a inteligência americana mandou que o levassem para Nova Orleans no dia seguinte, mas mais uma vez o cabra macho percebeu a manobra: “Se for pra ficar coberto de lama, num turbilhão de reviravoltas, e ver o teto cair à minha volta, diga ao povo que volto pra Brasília”.

E assim foi.

Até que um integrante da delegação americana, o contador e advogado criminalista Terry Danislov – o mesmo que ajudou a prender Al Capone – teve uma idéia: “Dizem que no país todo mundo é corrupto, vamos prendê-lo por corrupção!”. A equipe brasileira não conseguiu esconder o constrangimento: “Po, seu Danislov, não é bem assim… Primeiro que político não se prende, a gente obriga eles a renunciar. Segundo que se todo corrupto renunciar, o Brasil vai ser governado por uma junta para-militar de escoteiros-mirins…”

A começar que todo “convidado” à CPI leva sua autorização para o uso da mentira em defesa própria. “Isso é que é justiça”. Até a equipe do FBI gostou. “É o direito à mentira, está na constituição”, acrescenta o delegado brasileiro. “Igual aquela coisa da 1a. Emenda que vocês têm por lá”. O pessoal da CIA concorda com a cabeça. “Nosso país foi fundado em princípios democráticos de Ordem, Progresso, Mentira e Delação Premiada. Sem isso, não há governabilidade. Sem governo não há poder. E sem poder o negócio fica desinteressante pra maioria…”.

Só quem não gostou foi o obstinado contador americano, e já era tarde demais para tirar essa idéia da cabeça do gringo. Começou então a busca por provas de corrupção contra Severino. Documentos frios, transferências ao exterior, cartelas de bingo, qualquer coisa serverina, digo, serveria. Mas nada. Até que, finalmente, é encontrado um recibo escrito “Mensalinho” e um cheque com a assinatura:

X
“Essa era a prova que precisávamos”, afirma o contador. O destino de Severino estava traçado. O último nó que faltava era cobrir os gastos da operação. Coincidentemente, a operação Navalha na Droga da Carne obteve os fundos necessários.

“Eu voltarei, o povo me absolverá!”, brada, em sua renúncia. Kill Severino 2 ? Imperdível…

Falando nisso, essa coisa de marketing político tá em alta, depois do esquema revelado pelo Duda Mendonça e Valério-Duto. Os salários podem chegar a 9 mil reais, sem contar o por-fora (que pode chegar a 90 mil). E tem uns prospectos importantíssimos pra próxima eleição:

Garotinho. Sim, ele mesmo. Lí na Isto É que um renomado cientista político afirma que só trouxa não acredita na força do semi-bispo radialista. Já circula pelo meio alguns dos slogans: “Vote Garotinho e vá para o Céu”, ou se a coisa esquentar, “Quem não vota em Garotinho vai pro Inferno”. Depoimentos como: “Eu votei Garotinho e voltei a andar” também são válidos.

E o Lula provavelmente pode protelar contra esse governo corrupto neo-liberal e entreguista que aí está, sem mencionar que ele é o governo.

E finalmente, o Serra que, pra resolver sua total ausência de carisma e charme, pode se inscrever no BBB 5, no Fama, comer uma buchada de bode com farinha em Caruarú e, o mais importante, nascer de novo!

Quem se desesperou com isso, nada tema. Eu sempre votei nulo e as coisas nunca foram melhores. Só me pergunto: chegará o dia em que o brasileiro baterá no peito e dirá: “nunca ouve* um governo tão pouco corrupto como esse!”?? (*sim, do jeito que andam as escolas, o brasileiro mediano dirá assim, sem o “h”).

Afinal, até o Flamengo acabou empatando o jogo… Quem sabe o Brasil não se livra do rebaixamento e permanece na terceirona, junto com Bahia e Vitória?

PS: Este foi o terceiro episódio da Quadrilogia da Polêmica: Política. O primeiro foi Dinheiro, o segundo Religião. Não perca quinzena que vem, Sexo ! Imperdível !

Cena carioca:Uma campanha vem crescendo pelas ruas, em apoio à comunidade GLS. Se o motorista do carro à sua frente colocar a mão para fora e desmunhecar, buzine !


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